APESAR DE VCs

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Retomaremos este Blog para postar as Histórias da Ditadura, como um BLOG janela ligado ao Blog JUNTOS SOMOS FORTES

NOSSOS HEROIS -

NOSSOS HEROIS -
Amigos(as) Criei uma pagina no FACEBOOK intitulada : NOSSOS HERÓIS. Meu objetivo é resgatar a história dos mineiros (as) que lutaram contra a ditadura militar. Fui Presidente do Comitê Brasileiro Pela Anistia/MG e estou postando todas anotações que fiz durante esse periodo. São documentos históricos e inéditos. Caso tenha interesse dê uma olhadinha Abraços BETINHO DUARTE

Thursday, September 29, 2011

A COMISSÃO DA VERDADE E A LIÇÃO DE WEIMAR

Os signatários do Manifesto por uma Comissão da Verdade digna do nome prometem lutar "até o fim para que sejam alterados diversos dispositivos deletérios" do projeto de lei respectivo.

Da forma como  está, dizem, "terá como resultado uma Comissão Nacional da Verdade enfraquecida, incapaz de revelar à sociedade os crimes da ditadura militar", uma vez que:
"O texto atual do projeto estreita a margem de atuação da Comissão, dando-lhe poderes legais diminutos, fixando um pequeno número de integrantes, negando-lhe orçamento próprio; desvia o foco de sua atuação ao fixar em 42 anos o período a ser investigado (de 1946 a 1988!), extrapolando assim em duas décadas a já extensa duração da Ditadura Militar; permite que militares e integrantes de órgãos de segurança sejam designados membros da Comissão, o que é inaceitável.

Além disso, o texto atual do PL 7.376/2010 impede que a Comissão investigue as responsabilidades pelas atrocidades cometidas e envie as devidas conclusões às autoridades competentes, para que estas promovam a justiça".
Já o Manifesto de Artistas e Intelectuais em apoio à Comissão da Verdade, anterior, ressaltou que "ainda não podemos celebrar a democracia se não tivermos pleno conhecimento das violações cometidas nesse passado tão recente", dai manifestar "a esperança de que os parlamentares possibilitem à atual e às futuras gerações o conhecimento desses fatos, para sabermos a verdadeira verdade... única forma de garantirmos que isso nunca mais aconteça".

Como não fui consultado pelos articuladores de um e de outro, sinto-me à vontade para propor uma  terceira via.

Não cabe uma adesão incondicional ao texto que está sendo negociado com as bancadas direitistas no Congresso, nem uma rejeição prematura e extremada da Comissão, qualificando-a de "uma farsa e um engodo" caso não sejam mudados vários dispositivos.

O fato é que a correlação de forças NOS TRÊS PODERES nunca foi favorável a que realmente se passasse a ditadura a limpo, REVOGANDO A ANISTIA DE 1979 como primeiro e fundamental passo para que os torturadores fossem levados aos tribunais.

Tarso Genro e Paulo Vannuchi bem que tentaram, mas a maioria do ministério de Lula ficou contra, o Congresso Nacional se omitiu e a mais alta corte do País considerou válido o habeas corpus preventivo que os déspotas e seus esbirros concederam a si próprios.

Isto para não falarmos no chamado  quarto poder, a imprensa, que chegou ao cúmulo de minimizar aquele festival de horrores, qualificando-o de  ditabranda.

Não estivesse a atual presidente da República determinada a fazer com que a palavra final do Estado brasileiro seja menos inconclusiva, sairíamos de mão abanando, sem sequer o pouco que estamos em vias de obter.

A decisão exemplar da Corte Interamericana de Direitos Humanos tem enorme significado moral, mas, quanto aos efeitos práticos, haveria forma de a contornar -- sempre há. Devemos dar a Dilma o que é de Dilma -- o mérito por, coerentemente com sua história de vida, estar jogando todo seu peso presidencial na viabilização da Comissão da Verdade.

Então, não é o caso de torpedearmos um colegiado que foi o resultado mais significativo colhido em quatro anos de árduas batalhas, desde o lançamento do livro Direito à Memória e à Verdade; mas sim de tudo fazermos para que ele não venha a ser "incapaz de revelar à sociedade os crimes da ditadura militar".

Lembrem-se da República de Weimar: atacada pelos nazistas à direita e pelos comunistas à esquerda, a democracia alemã soçobrou. Mas, como a esquerda havia superestimado suas forças e subestimado a dos inimigos, quando os moderados saíram de cena quem venceu o braço de ferro foi Hitler.

Erro terrível dos comunistas alemães
facilitou a chegada de Hitler ao poder
Ou seja, a opção insensata pelo  tudo ou nada  acabou se revelando catastrófica para a Alemanha e para o resto da humanidade, condenada ao pesadelo de uma guerra mundial.

Não devemos repetir tal erro. Temos, sim, de lutar para que o texto definitivo da lei que cria a Comissão seja o melhor possível; e continuarmos lutando por nossos objetivos dentro da Comissão, pois é lá que tudo realmente se decidirá.

Sete membros e catorze assessores podem fazer muito em dois anos, com ou sem o orçamento ideal.

Não há tantos e tão significativos crimes para se investigar no período entre as duas ditaduras, de forma que este capítulo acabará sendo secundário, sem tirar a ênfase do principal.

Se haverá  viúvas  ou discípulos da ditadura na Comissão, a equanimidade manda que também haja antigos resistentes, apesar da tentativa do DEM de os excluir. Quem terá melhores argumentos para convencer os demais? Vamos supor um debate entre Jair Bolsonaro e Eduardo Suplicy, qual deles conquistaria a simpatia dos homens de bem que estivessem assistindo?

Quanto à punição dos torturadores, não é a Comissão da Verdade o real empecilho, mas sim a decisão do STF, que teria de ser revertida. Trata-se de uma luta complementar, não de parte desta luta.

Aqueles que tentam empurrar Dilma para um confronto de Poderes, dando à direita (que ainda não se recuperou do nocaute na última eleição presidencial) uma forte bandeira para se reagrupar e sair da toca, deveriam refletir um pouco sobre Weimar.

Sunday, September 25, 2011

JORNAL DA DITABRANDA DESQUALIFICA A COMISSÃO DA VERDADE

A Folha de S. Paulo se tornou cautelosa com seus editoriais reacionários, depois que alguns deles tiveram o efeito de devastadores bumerangues -- o da  ditabranda, p. ex., foi um dos mais piores tiros pela culatra que um jornal já deu.

Então, para ajudar seus antigos parceiros a se livrarem do merecido opróbrio, como já se livraram da merecida prisão, o Grupo Folha agora recorre a uma enrolação um tantinho mais sofisticada para desqualificar a Comissão da Verdade:
"...Não cabe a um organismo indicado pelo Executivo (...) estabelecer 'a Verdade', com 'V' maiúsculo, neste ou em qualquer assunto que seja.

...É irrealista supor que, no exíguo prazo de dois anos, uma comissão de 7 membros e 14 auxiliares, como estabelece o projeto, venha a levantar todos os casos de violação aos direitos humanos.

Em que medida (...) estariam contemplados representantes e defensores do próprio regime militar? Sua presença, não é exagerado supor, traria dificuldades e entraves ao trabalho da comissão. Sua ausência, por outro lado, abriria o flanco a acusações de parcialidade nas investigações.

A Comissão da Verdade cumpriria melhor seu papel, a rigor, se estabelecesse as condições mais amplas possíveis para o acesso dos cidadãos a documentos do período.

Investigações independentes, feitas por organizações, pesquisadores e jornalistas sem vínculos com o Estado, constituem no melhor mecanismo para se chegar mais próximo de um ideal nunca definitivo, a verdade histórica. Esta não é monopólio de nenhum colegiado oficial, por mais imparcial que seja".
RACIONÁLIA INFAME

Esta racionália infame parte do pressuposto de que haveria duas versões em pé de igualdade, a serem levadas  imparcialmente  em conta: a dos torturados e a dos torturadores. É a tese do DEM, partido que remonta à antiga Arena, avalista de atrocidades e genocídios.

No entanto, a civilização adota critérios bem diferentes. Começando pela ONU, que recomenda aos países saídos de ditaduras a apuração rigorosa dos crimes cometidos pelos déspotas e seus esbirros, a punição exemplar dos responsáveis, a indenização das vítimas e a criação de mecanismos institucionais que dificultem a recaída nas trevas.

O Brasil, a rigor, não fez nem metade da lição de casa.

Concedeu reparações aos torturados, lesionados fisica e psicologicamente, estuprados, prejudicados em sua carreira e em todas as esferas de sua vida. Mesmo assim, sob uma enxurrada de ataques falaciosos das  viúvas da ditadura, de seus discípulos e dos seus bobos úteis.

A apuração dos crimes só se deu em termos de reconhecimento e quantificação de direitos gerados para as vítimas ou seus herdeiros, por meio das comissões de Anistia e de Mortos e Desaparecidos Políticos.

Punido, nem o pior dos carrascos foi. Zero. Com a omissão do Executivo e do Legislativo.

E com a cumplicidade da mais alta corte do País, que produziu em abril/2010 uma das decisões mais escabrosas de sua História, fazendo lembrar os juristas franceses da República de Vichy, que colaboravam com os nazistas (vide o ótimo filme de Costa Gravas, Seção Especial de Justiça).

Os antídotos ao golpismo também foram descurados. Tanto que a caserna continua sendo até hoje uma espécie de quarto poder e apita mais do que os outros três em determinados assuntos -- como o de passarmos ou não a limpo o festival de horrores dos  anos de chumbo.

Seu veto à revogação da anistia que os verdugos concederam previamente a si próprios em 1979 garantiu a impunidade eterna das bestas-feras do arbítrio. E sua resistência ao resgate e exposição da verdade é que está levando aos contorcionismos ridículos e concessões absurdas que marcam a gestação da Comissão respectiva.

A saída da ditadura pela porta dos fundos em 1985, mediante conluio da oposição com situacionistas que abandonaram a canoa furada para se manterem no poder (Sarney à frente), impediu que houvesse uma verdadeira redemocratização do País e nos legou a situação anômala que nos faz motivo de pilhérias no mundo civilizado. Estamos sendo os últimos e os mais tímidos no acerto das contas do passado infame.

ÚLTIMA CHANCE

A Comissão da Verdade, que em suas linhas mestras fui dos primeiros a defender, é o última chance de deixarmos estabelecido, como veredito oficial do Estado brasileiro, o repúdio ao golpismo, à ditadura, ao estupro dos direitos humanos.

Caso contrário, os totalitários continuarão podendo alegar impunemente que em 1964 foi dado um contragolpe preventivo e que ambos os lados cometeram excessos equivalentes durante os anos de chumbo.

E nada vai impedir que se batizem ruas e praças com os nomes de sérgio paranhos fleury, emílio garrastazu médici e outros que tais (as minúsculas são intencionais).

É discutível que se consiga avançar muito, com mais de um quarto de século de atraso e depois da diligente destruição de arquivos por parte de quem tinha esqueletos no armário, no esclarecimento de episódios ainda obscuros.

Mas, apenas reunir o que já se apurou numa espécie de balanço final do período já dará aos democratas um trunfo poderoso nos embates políticos do presente e do futuro.

Pois, a esta altura, só nos resta tentarmos criar anticorpos, para que nunca mais o Brasil mergulhe nas trevas tirania e da barbárie.

Nem isto o jornal da  ditabranda  admite.

Tuesday, September 20, 2011

A LUTA PARA ESCANCARARMOS A VERDADE ESTÁ SÓ COMEÇANDO

Mais uma vez Vladimir Safatle lança um artigo tão oportuno e necessário que só me resta endossar -- com uma única ressalva, que detalharei adiante.

Até hoje, eu havia reconhecido apenas três autores como mestres do meu ofício: Paulo Francis e Roberto Campos, pela profundidade, didatismo e veemência com que expunham seus temas (embora eu discordasse de muitas posições do primeiro e de quase todas do segundo); e Alberto Dines, que foi o principal baluarte da resistência jornalística à ditadura militar.

Quando eu não esperava encontrar mais textos tão poderosos nas páginas domesticadas da grande mídia, fui obrigado a tirar o boné para Safatle: ele tem sido uma honrosa exceção em meio à terra arrasada na qual a imprensa brasileira se transformou.

Não por acaso, trata-se de um filósofo. Ai dos jornalistas, que se tornam cada vez mais impotentes ou complacentes! 

Segue a íntegra do artigo desta 3ª feira (20) de Vladimir Safatle, Suportar a verdade, ao qual eu só acrescentaria que, apesar de todas as insuficiências e distorções, a Comissão da Verdade prestes a ser criada ainda é melhor do que nada, cabendo-nos pressionar ao máximo para que ela cumpra seus objetivos.

Estão sendo feitas, sem dúvida, as mais descabidas concessões aos protagonistas, cúmplices, herdeiros e discípulos do despotismo. Mas, nenhuma luta deve ser dada por perdida antes de a travarmos. 

A vitória no Caso Battisti, que a desigualdade de forças tornava quase impossível (e, por isto mesmo, foi acachapante ao extremo!) deve nos servir de exemplo e inspiração, ao defrontarmo-nos de novo com os obscurantistas, nosso inimigo de sempre.
"Nos próximos dias, o governo deve conseguir aprovar, no Congresso, seu projeto para a constituição de uma Comissão da Verdade. O que deveria ser motivo de comemoração para aqueles realmente preocupados com o legado da ditadura militar e com os crimes contra a humanidade cometidos neste período será, no entanto, razão para profundo sentimento de vergonha.

Pressionado pela Corte Interamericana de Justiça, que denunciou a situação aberrante do Brasil quanto à elucidação e punição dos crimes de tortura, sequestro, assassinato, estupro e ocultação de cadáveres perpetrados pelo Estado ilegal que vigorou durante a ditadura militar, o governo brasileiro precisava mostrar que fizera algo.

No caso, 'algo' significa uma Comissão da Verdade aprovada a toque de caixa, sem autonomia orçamentária, sem poder de julgar, com apenas sete membros que devem trabalhar por dois anos, sendo que comissões similares chegam a ter 200 pessoas.
Tal comissão terá representantes dos militares, ou seja, daqueles que serão investigados. Como se isso não bastasse, a fim de tirar o foco e não melindrar os que se locupletaram com a ditadura e que ainda dão o ar de sua graça na política nacional, ela investigará também crimes que porventura teriam ocorrido no período 1946-64. Algo mais próximo de uma piada de mau gosto.
Um país que, na contramão do resto do mundo, tende a compreender exigências amplas de justiça como 'revanchismo' não tem o direito de se indignar com a impunidade que se dissemina em vários setores da vida nacional.
Aqueles que preferem nada saber sobre os crimes do passado ainda estão intelectualmente associados ao espírito do que procuram esquecer.

O povo brasileiro tem o direito de saber, por exemplo, que os aparelhos de tortura e assassinato foram pagos com dinheiro de empresas privadas, empreiteiras e multinacionais que hoje gastam fortunas em publicidade para falar de ética. Ele tem o direito de saber quem pagou e quanto.

Esta é, sem dúvida, a parte mais obscura da ditadura militar. Ou seja, espera-se de uma Comissão da Verdade que ela exponha, além dos crimes citados, o vínculo incestuoso entre militares e empresariado.

Vínculo este que ajuda a explicar o fato da ditadura militar ter sido um dos momentos de alta corrupção na história brasileira (basta lembrar casos como Capemi, Coroa Brastel, Lutfalla, Baumgarten, Tucuruí, Banco Econômico, Transamazônica, ponte Rio-Niterói, relatório Saraiva acusando de corrupção Delfim Netto, entre tantos outros).

Está na hora de perguntar, como faz um seminário hoje no Departamento de Filosofia da USP: Quanta verdade o Brasil suporta?"

Monday, September 19, 2011

depoimentos das testemunhas na segunda ação movida contra o Ustra pela família Merlino.

Seguem anexos os depoimentos das testemunhas na segunda ação movida contra o
Ustra pela família Merlino.

PODER JUDICIÁRIO SÃO PAULO
20ª Vara Cível Central
Processo nº 583.00.2010.175507-9
ANGELA MARIA NENDES DE ALMEIDA e REGINA MARIA MERLINO DIAS DE ALMEIDA X
CARLOS ALBERTO BRILHANTE USTRA

1ª TESTEMUNHA DAS AUTORAS
Nome: ELEONORA MENICUCCI DE OLIVEIRA
(qualificada nos autos)
TESTEMUNHA COMPROMISSADA E INQUIRIDA PELA MMª JUÍZA DE DIREITO, NA FORMA E SOB AS PENAS DA LEI, RESPONDEU:
MMª JUÍZA:
Eu tenho aqui alguma menção à senhora no processo; a senhora esteve na OBAN
em mil novecentos e setenta ou mil novecentos e setenta e um?
DEPOENTE:
Sim.
MMª JUÍZA:
O que significa OBAN?
DEPOENTE:
Operação Bandeirantes.
MMª JUÍZA:
Operação Bandeirante? A senhora esteve lá e encontrou lá com o Sr. Luís
Eduardo? O viu lá?
DEPOENTE:
Primeiro, boa tarde.
MMª JUÍZA:
Boa tarde!
DEPOENTE:
Fui presa em onze de julho com o então meu marido, Ricardo Prata Soares; e
ficamos na Operação Bandeirantes uma média de sessenta a sessenta e cinco
dias. Estive sim com o Luís Eduardo Merlino e ouvia ele sendo barbaramente
torturado.
MMª JUÍZA:
Quem batia nele? Quem o torturava?
DEPOENTE:
Existiam três equipes: equipes A, B e C, e essas equipes se alternavam por
turno.
MMª JUÍZA:
As equipes era formadas por quantas pessoas?
DEPOENTE:
Variava, variava. Todas as equipes muito disciplinadas e muito agressivas.
MMª JUÍZA:
A senhora viu o General Ustra por lá?
DEPOENTE:
Vi.
MMª JUÍZA:
E ele estava junto com alguma dessas equipes?
DEPOENTE:
Desde o dia que eu fui presa, o que me impressionou, eu tinha uma filha de
um ano e dez mesesâ¦
MMª JUÍZA:
Com relação ao Seu Luiz Eduardo.
DEPOENTE:
Chegarei lá se possível. Eu vi o Coronel Ustra. E no momento da prisão do
Senhor Luiz Eduardo da Rocha Merlino eu já estava presa. Numa madrugada eu
fui chamada, retirada da cela e fui a uma sala chamada sala de tortura, onde
tinha um Pau-de-Arara e a Cadeira-do-Dragão. Neste Pau-de-Arara estava o
Luís Eduardo da Rocha Merlino, nu, já com uma enorme ferida nas pernas,
numa das pernas era maior. E eu fui torturada na Cadeira-do-Dragão. Neste
momento eu vi o Luís Eduardo Merlino, eu assisti à tortura, sendo torturada,
e vi o Coronel Ustra entrar na sala e sair.
MMª JUÍZA:
Entrou viu e assistiu?
DEPOENTE:
Sim. Entrou na sala, assistiu.
MMª JUÍZA:
Não falou nada? Ficou um tempo lá?
DEPOENTE:
É, não sei precisar o tempo que ele permaneceu na sala. A outra oportunidade
o outro momento em que o vi foi no momento que existiu uma ameaça de
tortura de minha filha; e ele entrava na sala e fazia assim, assim, assim (a
depoente faz sinais de afirmativo e negativo com o polegar direito,
alternadamente) dizendo positivo ou negativo, para os torturadores da equipe

MMª JUÍZA:
Nessa mesma ocasião, quando estava lá o Senhor Luiz Eduardo?
DEPOENTE:
Sim, sim. Foram dois ou três dias muito fortes. Eu tinha vinte e três anosâ¦
vinte e quatroâ¦, e tenho plena convicção que o Coronel Ustra não só
participava mas ele autorizava as torturas para mais ou para menos. Eu Acho
importantíssimo esse momento em que estamos aqui, consignar, em função do
resgate total da verdade.
MMª JUÍZA:
O Senhor Luiz Eduardo ficou mau, pior e teve que ser levado ao hospital? A
senhora também viu isso?
DEPOENTE:
Esse machucado que vi foi gangrenando, segundoâ¦, porque a cela das mulheres
era separada da dos homens. E o Luís, por informações dadas pelos
carcereiros, ele estava na cela forte junto com o Guido. E depois um
silêncio absoluto, não se falava mais nele. E depois, novamente se falava
que ele tinha falecido e, na realidade, ele não morreu, ele foi assassinado.
Ele foi levado para o hospital, não sei dizer para a senhora qual era o
hospital, porque a mim não cabia. Eu estava no outro lado com outro
registro. E depois do silêncio, uma total informação de que ele tinha
falecido por gangrena na perna. Então, a gangrena na perna levou a ser
amputada a perna; ele voltou para a OBAN e depois foi retirado morto da OBAN

MMª JUÍZA:
NADA MAIS.
Nada mais. Lido e achado conforme, vai devidamente assinado. Eu,
________________, Lilian de Oliveira Melo Poma Boga,
escrevente-estenotipista, estenotipei, transcrevi e subscrevi. Em 02 de
agosto de 2011, e assino.

2ª TESTEMUNHA DAS AUTORAS
Nome: LAURINDO MARTINS JUNQUEIRA FILHO
(qualificado nos autos)
TESTEMUNHA COMPROMISSADA E INQUIRIDA PELA MMª JUÍZA DE DIREITO, NA FORMA E SOB AS PENAS DA LEI, RESPONDEU:
MMª JUÍZA:
O senhor também estava na OBAN?
DEPOENTE:
Sim.
MMª JUÍZA:
Que idade o senhor tinha, então?
DEPOENTE:
Vinte e seis anos.
MMª JUÍZA:
Quando foi isso?
DEPOENTE:
Mil novecentos e setenta e um.
MMª JUÍZA:
O senhor lembra a data em que o senhor foi preso?
DEPOENTE:
Eu me lembro que foi⦠no dia dezesseis de julho, se não me engano.
MMª JUÍZA:
Junto com a Dona Eleonora ou não?
DEPOENTE:
Sim, sim, sim.
MMª JUÍZA:
Lá o senhor viu o Seu Luiz Eduardo?
DEPOENTE:
Sim.
MMª JUÍZA:
Quando o senhor o encontrou ele estava bem?
DEPOENTE:
Absolutamente! Ele estava sendo torturado, numa sessão de tortura e todo
lesado.
MMª JUÍZA:
O senhor assistiu o momento que ele estava sendo torturado?
DEPOENTE:
Ele me fez um relato de que havia sido torturado e que me haviam enviado
para me convencer a eu falar o que sabia, pra interromper minha tortura. E
que ele, por ter sido torturado, não tinha agüentado a tortura e tinha
relevado o endereço que pediram pra ele.
MMª JUÍZA:
O senhor sabe qual foi a participação do requerido, o Senhor Brilhante Ustra
nessa tortura? Ele participou diretamente? Ele disse para o senhor?
DEPOENTE:
Ustra era o Comandante da unidade e assistiu minha tortura, assistiu a
tortura do meu companheiro que estava comigo. Ele não viu o Luiz Eduardo
sendo torturado, mas ele era o Comandante da unidade de tortura e orientava
essa tortura pessoalmente.
MMª JUÍZA:
Isso o senhor assistiu acontecer?
DEPOENTE:
Eu assisti comigo.
MMª JUÍZA:
Mas o Luiz Eduardo comentou que com ele também aconteceu isso: do Ustra
estar lá na hora?
DEPOENTE:
Sim, sim. Eu gostaria de acrescentar mais uma informação. Posso falar?
MMª JUÍZA:
Claro.
DEPOENTE:
Após o contato com o Luiz Eduardo, eu recebi informações de um soldado do
exército, que prestava serviço na Unidade da OBAN, de que o Luiz Eduardo
tinha morrido, tinha sido torturado durante a noite. E esse soldado, de
suposto nome Washington, de cor negra, veio até mim e falou que o Luiz
Eduardo tinha morrido de gangrena nas pernas; tinha sido conduzido para um
passeio â foi a expressão que ele usou â na madrugada, e que tinha sido
várias vezes atropelado por um caminhão que prestava serviços para a Unidade
da OBAN. Isso teria se repetido tantas vezes que os órgãos dele tinham sido
decepados pelo caminhão. Então, esse foi o relato feito pelo soldado que
prestava assistência aos presos nas celas, era militar; não sei com que
intenção ele me fez esse relato, se era me forçar a falar o que eu sabia.
Mas, de fato, o relato ocorreu.
REPERGUNTAS DO ADVOGADO DAS AUTORAS:
MMª JUÍZA:
Esses fatos que foram relatados, do caminhão indo e voltando, ocorreram
dentro da unidade?
DEPOENTE:
Sim, perfeitamente. Ele disse que o Luiz Eduardo foi conduzido do presídio
da OBAN já morto para esse passeio, com um caminhão que servia a Unidade da
OBAN. E que isso tinha ocorridoâ¦
MMª JUÍZA:
Em alguma estrada por aí?
DEPOENTE:
Ele não citou onde teria sido, mas, em outras palavras, teriam simulado um
acidente de trânsito com ele, como se tivesse havido uma fuga. Na realidade
a morte dele não foi intencional, não teria sido prevista.
MMª JUÍZA:
NADA MAIS.
Nada mais. Lido e achado conforme, vai devidamente assinado. Eu,
________________, Lilian de Oliveira Melo Poma Boga,
escrevente-estenotipista, estenotipei, transcrevi e subscrevi. Em 02 de
agosto de 2011, e assino.

3ª TESTEMUNHA DAS AUTORAS
Nome: LEANE FERREIRA DE ALMEIDA
(qualificada nos autos)
TESTEMUNHA COMPROMISSADA E INQUIRIDA PELA MMª JUÍZA DE DIREITO, NA FORMA E
SOB AS PENAS DA LEI, RESPONDEU:
MMª JUÍZA:
A senhora também esteve presa em setenta, setenta e um?
DEPOENTE:
Sim.
MMª JUÍZA:
Quando a senhora foi presa?
DEPOENTE:
Em quinze de julho de mil novecentos e setenta e um.
MMª JUÍZA:
E lá a senhora encontrou com o Luiz Eduardo, na OBAN?
DEPOENTE:
Eu ouvi os gritos do Luis Eduardo durante três dias, durante o período que
as equipes comandadas pelo Major Ustra o torturaram.
MMª JUÍZA:
A senhora viu o senhor Ustra lá fazendo alguma coisa?
DEPOENTE:
Ele me torturou pessoalmente desde o primeiro dia.
MMª JUÍZA:
Ele pessoalmente com relação à senhora?
DEPOENTE:
Eu fui a primeira militante que estava atuando a ser presa, do nosso grupo.
A esperança do Ustra e suas equipes é que eu tivesse grandes informações a
dar. Então, ele participou pessoalmente da tortura desde a hora em que
cheguei na OBAN, no dia quinze.
MMª JUÍZA:
E com relação ao seu Luiz Eduardo, também a senhora tem essa notícia de que
ele participou diretamente na tortura dele?
DEPOENTE:
Ele passou a ser torturado a partir do momento em que ele chegou. E eu fui
tirada da sala de tortura para o Luiz Eduardo Merlino entrar.
MMª JUÍZA:
E lá estava o Ustra, na sala de tortura?
DEPOENTE:
Estava o Ustra. A coisa principal que ele estava fazendo naquele dia era
torturar as pessoas que poderiam levar a uma pessoa que ele procurava muito
fortemente; e era em código, eu não entendia o que ele dizia, ele
pronunciava repetidamente: âHiroaki Toigoy, Hiroaki Toigoy!â. Ele gritava
esse nome pessoalmente enquanto ele era torturado no Pau-de-Arara. Parece um
código, mas era o nome de um militante. O objetivo dele era chegar aos
militantes. Quando eu não tive essa informação pra dar, o Luiz Eduardo foi
preso e passou a ser torturado na mesma sequência e sala que eu, durante
três dias consecutivos. Todos os presos escutavam os gritos dele
incessantemente, até sua retirada da Operação Bandeirantes, desacordado e
colocado no porta-malas de um carro. Isso foi visto por mim, no pátio do
Presídio Bandeirantes, comandado pelo Major Ustra; colocado no porta-malas
de um carro por quatro outros policiais da mesma equipe. Foi colocado no
porta-malas do carro, desacordado. Parecia até já morto. Foi assim que eu vi
o Luiz Eduardo na OBAN.
REPERGUNTAS DO ADVOGADO DAS AUTORAS:
MMª JUÍZA:
A senhora pode explicar melhor como foi que a senhora viu e onde a senhora
estava? A senhora estava onde nessa hora?
DEPOENTE:
Quando começaram a torturar mais fortemente o Merlino eu fui transferida
para uma outra cela porque eu estava em péssimas condições físicas. Então me
tiraram da carceragem onde ficavam os demais presos. Eles me levaram para a
enfermaria por algumas horas; o enfermeiro fez alguns curativos nos meus
ferimentos, devido ao Pau-de-Arara e à Cadeira-do-Dragão; e me levaram para
uma outra cela. Eu fui várias vezes na enfermaria, mas sempre voltando para
essa outra cela que ficava no primeiro andar da Operação Bandeirantes, não
no térreo. Nesta cela tinha uma janela basculante e duas outras companheiras
tiveram que me segurar porque a gritaria fui muito grande quando retiraram o
corpo do Luiz Eduardoâ¦
MMª JUÍZA:
Quem gritava?
DEPOENTE:
Os policiais, porque aparentemente não seria possível salvá-lo. Enfim, eles
fizeram um alarido muito grande e nós nos organizamos; as duas companheiras
â eu era a menor das três â me seguraram e eu consegui chegar até a
basculante pra ver o corpo dele sendo colocado no porta-malas de um carro,
jogado no porta-malas de um carro, vestido, inerte, totalmente vulnerável,
por quatro homens comandados pelo Major Ustra.
MMª JUÍZA:
NADA MAIS.
Nada mais. Lido e achado conforme, vai devidamente assinado. Eu,
________________, Lilian de Oliveira Melo Poma Boga,
escrevente-estenotipista, estenotipei, transcrevi e subscrevi. Em 02 de
agosto de 2011, e assino.

4ª TESTEMUNHA DAS AUTORAS
Nome: PAULO DE TARSO VANUCCHI
(qualificado nos autos)
TESTEMUNHA COMPROMISSADA E INQUIRIDA PELA MMª JUÍZA DE DIREITO, NA FORMA E SOB AS PENAS DA LEI, RESPONDEU:
MMª JUÍZA:
O que o senhor tem a dizer a respeito desses fatos e da participação do
senhor Ustra na tortura com relação ao Senhor Merlino?
DEPOENTE:
Meritíssima, eu fui preso no Doi-Codi no dia dezoito de fevereiro de setenta
e um e fui levado imediatamente à presença do Comandante Ustra, que usava,
então, o nome de Major Tibiriçá. Fiquei preso ali três meses, tendo contato
estreito com ele; depois fui levado ao Dops, um mês e meio; uma semana de
presídio Tiradentes; e retornei ao Doi-Codi na Rua Tutóia no mês de julho. E
no mês de julho eu já estava iniciando o processo sub judice; respondi
relatórios curtos e conheci o Merlino, que foi trazido para a porta da minha
cela, no xadrez três. Rabisquei um croquis para a senhora, pra deixar para a
senhora, explicando onde foi a massagem, deitado numa escrivaninha, que um
enfermeiro â conhecido como Boliviano â fez durante uma hora na minha frente
Pude conversar com o Merlino, eu era estudante de medicina e notei que ele
tinha numa das pernas a cor da cianose, que é um sintoma de isquemia, risco
de gangrena. E nos dias seguintes perguntei para carcereiros, sobretudo para
um policial de nome Gabriel â negro, atencioso â o que tinha acontecido com
aquele moço e ele respondeu que ele tinha sido levado para o hospital. Nos
dias seguintes vi essa versão ser repetida e tinha contato com o Major
Tibiriçá, cheguei a perguntar sobre isso e ele nada me respondeu. E nesse
sentido eu tenho a dizer que o Major Ustra era o comandante que determinava
tudo o que podia, o que devia ser feito lá e o que não tinha.
MMª JUÍZA:
Ele assistiu quando o senhor Merlino foi agredido? Ustra assistiu? Estava na
cela?
DEPOENTE:
Não posso responder porque não assisti Merlino sendo agredido ou torturado.
Assisti só a sessão de massagem, que era um episódio raro. Os presos
torturados não eram socorridos dessa forma, tampouco em alguma situação
especial de risco e emergência, que levou a essa massagem. E o semblante das
respostas dos funcionário era que alguma coisa grave ali tinha acontecido.
MMª JUÍZA:
Nessa hora o senhor conversou com o Merlino, quando ele estava lá?
DEPOENTE:
Bastante.
MMª JUÍZA:
E ele comentou quem estava na sala?
DEPOENTE:
Não, não comentou. Ele estava com muita dor, com uma voz muito fraca e se
limitou a responder à pergunta: âComo você chama?â â Ele respondeu:
âMerlinoâ â Eu não entendi, entendi que fosse Merlim, e ele acenou. E o
silêncio era absolutamente comum entre nós, porque nós éramos levados para
as celas e não sabíamos quem eram as pessoas que nos perguntavam coisas. E
poderiam não ser presos, como várias vezes ocorreu, mas pessoas do próprio
sistema do Doi-Codi.
REPERGUNTAS DO ADVOGADO DAS AUTORAS:
MMª JUÍZA:
Com relação ao senhor, houve tortura por ele?
DEPOENTE:
Houve no momento da minha prisão seções de tortura comandadas por ele,
inclusive a decisão, no décimo dia da minha prisão, ele entra na sala e
manda parar. Então, dele veio a decisão de que eu parasse de ser torturado.
Um ano depois, em junho de setenta e dois, eu retornei pela sexta vez ao
Doi-Codi e fui submetido a uma sessão de tortura comandada pessoalmente por
ele, não mais para confissão, e, sim, porque nós estávamos em greve de fome,
exigindo um tratamento compatível com a dignidade humana e com a dignidade
de presos políticos. E Paulo de Tarso Venceslau e eu fomos trazidos,
escolhidos entre os grevistas que eram dezenas, para sermos torturados e
obrigados a nos alimentar. Não aceitamos e eu retornei à auditoria militar,
à presença do Juiz Auditor Nelson da Silva Machado Guimarães, a minha
Defensora Enir Raimundo Moreira, assistente do Sobral Pinto, e houve um
laudo em que o próprio Juiz Auditor constatou equimoses, hematomas e essa
sessão de espancamento que foi comandada pessoalmente por Ustra, em Junho de
setenta e dois.
MMª JUÍZA:
Major Tibiriçá e Major Ustra são a mesma pessoa?
DEPOENTE:
Sim.
MMª JUÍZA:
NADA MAIS.
Nada mais. Lido e achado conforme, vai devidamente assinado. Eu,
________________, Lilian de Oliveira Melo Poma Boga,
escrevente-estenotipista, estenotipei, transcrevi e subscrevi. Em 02 de
agosto de 2011, e assino.

6ª TESTEMUNHA DAS AUTORAS
Nome: JOEL RUFINO DOS SANTOS
(qualificado nos autos)
TESTEMUNHA COMPROMISSADA E INQUIRIDA PELA MMª JUÍZA DE DIREITO, NA FORMA E
SOB AS PENAS DA LEI, RESPONDEU:
MMª JUÍZA:
O senhor também esteve preso no Doi-Codi?
DEPOENTE:
Sim.
MMª JUÍZA:
Em setenta e um?
DEPOENTE:
Em setenta e dois.
MMª JUÍZA:
Quando o senhor foi pra lá?
DEPOENTE:
Fui pra lá nos últimos dias de dezembro de setenta e dois.
MMª JUÍZA:
O senhor conhecia o Merlino?
DEPOENTE:
Conheci muito, ele era meu amigo.
MMª JUÍZA:
O senhor acompanhou quando ele foi preso?
DEPOENTE:
Não. Eu soube depois.
MMª JUÍZA:
O senhor também sofreu tortura?
DEPOENTE:
Sofri.
MMª JUÍZA:
Quem tomava conta disso?
DEPOENTE:
O mandante era o Comandante Ustra.
MMª JUÍZA:
Ele participava diretamente das seções de agressão?
DEPOENTE:
No meu caso sim, no meu caso sim; seções de choques elétricos, tapasâ¦
REPERGUNTAS DO ADVOGADO DAS AUTORAS:
MMª JUÍZA:
As equipes lá do Doi-Codi, parece que havia mais de uma equipe? O senhor
sabe disso?
DEPOENTE:
Havia mais de uma equipe.
MMª JUÍZA:
Eles comentavam alguma coisa com o senhor a respeito do Merlino?
DEPOENTE:
Principalmente um torturador, o Oderdan, ele me relatou como foi a tortura
do Merlino. Quer que eu conte isso?
MMª JUÍZA:
Nós estamos mais interessados em saber quem foi que torturou, essa é a nossa
idéia; saber se o Coronel, ou Major Ustra estava na sala quando ele foi
torturado.
DEPOENTE:
Pela versão que me deu esse torturador, ele estava presente e comandou a
tortura sobre o Merlino. E decidiu ao final se amputava ou não a perna do
Merlino. A versão que recebi foi essa, que o Merlino, depois de muito
torturado, foi levado ao hospital e de lá telefonam, se comunicam com o
Comandante Ustra pra saber o que fazer. Ele disse para deixar morrer.
MMª JUÍZA:
Ah! Não amputou?
DEPOENTE:
Não amputou, nessa versão.
MMª JUÍZA:
Ele, então, morreu no hospital?
DEPOENTE:
No hospital.
MMª JUÍZA:
Ele foi para o hospital, voltou pra lá e foi de novo, ou ele já foi para o
hospital e ficou?
DEPOENTE:
Isso não sei.
MMª JUÍZA:
Não sabe essa sequência?
DEPOENTE:
Não.
MMª JUÍZA:
NADA MAIS.
Nada mais. Lido e achado conforme, vai devidamente assinado. Eu,
________________, Lilian de Oliveira Melo Poma Boga,
escrevente-estenotipista, estenotipei, transcrevi e subscrevi. Em 02 de
agosto de 2011, e assino.

******************************

Luiz Eduardo Merlino, repórter do Jornal da Tarde, entrou como preso no
DOI-CODI e, quatro dias depois, estava irremediavelmente morto, antes de
completar 23 anos. Na noite de 15 de julho de 1971, ele dormia na casa da
mãe, em Santos, quando foi despertado por três homens em trajes civis,
armados com metralhadoras. âLogo estarei de voltaâ, disse Merlino, tentando
tranqüilizar a mãe e a irmã. Nunca mais voltou.

Merlino passou a madrugada e o dia seguinte na sala de tortura. Ao lado
ficava a solitária, conhecida como âX-Zeroâ, uma cela quase totalmente
escura, com chão de cimento, um colchão manchado de sangue e uma privada
turca. O único preso do lugar, Guido Rocha, ouvia os gritos e gemidos de
Merlino, submetido a sessões continuadas de tortura pelas três turmas de
agentes que se revezavam em turnos de oito horas no DOI-CODI para preservar
o ritmo da pancadaria ao longo do dia. Horas depois, arrastado pelos
torturadores, ele foi jogado na âX-Zeroâ. Estava muito machucado, as duas
pernas dormentes pelas horas pendurado no pau-de-arara. Para ir à privada,
Merlino precisava ser carregado por Guido. Estava tão debilitado que, no
lugar da usual acareação com outro preso na sala de tortura ao lado, Merlino
teve o âprivilégioâ de ser acareado na própria âX-Zeroâ.

Na manhã do dia 17, o enfermeiro da Equipe A de Ustra arrastou uma mesa até
o pátio para onde se abriam sete celas. O carcereiro carregou Merlino até a
mesa improvisada, onde o enfermeiro, com bata branca, calças e botas
militares, colocou-o de bruços para massagear as pernas. Quando lhe tiraram
o calção, os presos viram que as nádegas de Merlino estavam esfoladas. Os
presos das celas 2 e 3 o ouviram dizer que fora torturado toda a noite e que
suas pernas não o obedeciam mais. Um dos detidos, Rui Coelho, seria anos
depois vice-diretor da Faculdade de Filosofia da USP. De volta ao âX-Zeroâ,
Merlino foi submetido pelo enfermeiro ao teste de reflexo no joelho e na
planta do pé. Nenhum respondeu.

Tudo o que ele comia, vomitava. Havia sangue no vômito. Guido deu uma pêra a
Merlino, que lhe fez um apelo: âChame o enfermeiro, rápido! Eu estou muito
malâ, disse Merlino, agora com os braços também dormentes. O companheiro
bateu na porta, gritou por socorro. O enfermeiro voltou, com outras pessoas
identificadas por Guido como torturadores. Merlino foi transferido para o
Hospital Geral do Exército. No dia 20, pela manhã, o PM Gabriel contou aos
presos do DOI-CODI de Ustra que Merlino morrera na véspera. âProblemas de
coraçãoâ, disse. Às 20h daquele mesmo dia, dona Iracema Merlino recebeu um
telefonema de um delegado do DOPS com uma versão menos caridosa: seu filho,
contou o policial, matou-se ao se jogar embaixo de um carro na BR-116, ao
escapar da escolta que o levava a Porto Alegre. O corpo do jornalista foi
entregue à família num caixão fechado.

Dois anos depois, ainda preso no DOI-CODI, o historiador Joel Rufino dos
Santos ouviu de um de seus torturadores, o agente Oberdan, esta versão: âO
Merlino não morreu como vocês pensam. Ele foi para o hospital passando mal.
Telefonaram de lá para dizer: âOu cortamos suas pernas ou ele morreâ.
Fizemos uma votação. Ganhou âdeixar morrerâ. Eu era contra. Estou contando
porque sei que vocês eram amigosâ.

O laudo do IML, assinado por dois médicos legistas, apontava como causa da
morte âanemia aguda traumática por ruptura da artéria ilíaca direitaâ, e
finalizava com uma suposição nada científica: âSegundo consta, foi vítima de
atropelamentoâ. Amigos de Merlino acorreram ao local do suposto
atropelamento, e não encontraram nenhum vestígio do acidente. Não houve
registro policial, o atropelador não deixou pistas. A censura impediu a
notícia da morte de Merlino. Só no dia 26 de agosto de 1971 é que O Estado
de S.Paulo conseguiu vencer a barreira, publicando o anúncio fúnebre para a
missa de 30â° dia na Catedral da Sé. Quase 800 jornalistas compareceram ao
culto na Sé, cercada por forte aparato policial, que incluía agentes com
metralhadoras infiltrados até no coro da igreja.
Esta é a história que José Sarney vai ouvir no tribunal. A estória que o
coronel Ustra contará é a mesma de sempre e foi antecipada por ele, no
início do mês, num site de ex-agentes da repressão e nostálgicos da treva, o
Ternuma, abreviatura de âTerrorismo Nunca Maisâ.

Esta é a delirante, cândida versão de Ustra: âAo voltar [da França, Merlino]
foi preso e, depois de interrogatórios, foi transportado em um automóvel
para o Rio Grande do Sul, a fim de ali proceder ao reconhecimento de alguns
contatos que mantinha com militantes. Na rodovia BR-116, na altura da cidade
de Jacupiranga, a equipe de agentes que o transportou parou para um lanche
ou um café. Aproveitando uma distração da equipe, Merlino, na tentativa de
fuga, lançou-se na frente de um veículo que trafegava pela rodovia. Se bem
me lembro, não foi possível a identificação que o atropelou. Faleceu no dia
19/7/1971, às 19h30, na rodovia BR-116, vítima de atropelamentoâ. Um
parágrafo adiante, Ustra concede: âHoje, quarenta anos depois, se houve ou
não tortura, é impossível comprovarâ.

Assim, só cuspindo marimbondos de fogo para confiar na versão de uma equipe
tão distraída do mais temido DOI-CODI do país e para acreditar na repentina
agilidade física de um preso capaz de correr para uma rodovia federal e
incapaz de alcançar a privada da masmorra pela paralisia das pernas
destroçadas no pau-de-arara. Nem o imortal José Sarney, autor de 22 livros,
três deles romances, conseguiria produzir ficção tão ordinária, tão sórdida,
tão indecente.

No Tribunal de Justiça de São Paulo, a partir desta semana, um ex-presidente
da República poderá apressar (ou não) o seu melancólico final de carreira.
Acreditando no inacreditável e defendendo o indefensável, José Sarney
encontrou, enfim, o roteiro e o personagem que podem levá-lo definitivamente
ao brejal da desmemória, da inverdade e da injustiça.

Pensando bem â pensando no presidente e no torturador, no âcoronelâ e no
coronel â, Sarney e Ustra bem que se merecem! O Brasil e os brasileiros é
que não mereciam isso.

*Luiz Cláudio Cunha é jornalista.
· · · Ontem às 03:00

Friday, September 16, 2011

COMANDANTE CARLOS LAMARCA (1937-1971): VENCER OU MORRER

Hoje se completam 40 anos da morte do comandante Carlos Lamarca, que estava debilitado e indefeso quando foi covardemente executado pela repressão ditatorial no sertão baiano, em 17 de setembro de 1971, numa típica  vendetta  de gangstêres.

O que há, ainda, para se dizer sobre Lamarca, o personagem brasileiro mais próximo de Che Guevara, por história de vida e pela forma como encontrou a morte?

Foi, acima de tudo, um homem que não se conformou com as injustiças do seu tempo e considerou ter o dever pessoal de lutar contra elas, arriscando tudo e pagando um preço altíssimo pela opção que fez.

Teve enormes acertos e também cometeu graves erros, praticamente inevitáveis numa luta travada com tamanha desigualdade de forças e em circunstâncias tão dramáticas.

Mas, nunca impôs a ninguém sacrifícios que ele mesmo não fizesse. Chegava a ser comovente seu zelo com os companheiros -- via-se como responsável pelo destino de cada um dos quadros da Organização e, quando ocorria uma baixa, deixava transparecer pesar comparável ao de quem acaba de perder um ente querido.

Dos seus melhores momentos, dois me sensibilizaram particularmente.

Logo depois do Congresso de Mongaguá (abril/1969), quando a VPR saía de uma temporada de luta interna e de  quedas  em cascata, o caixa estava a zero e a rede de militantes, clandestinos em sua maioria, carecia desesperadamente de dinheiro para manter as respectivas  fachadas -- qualquer anomalia, mesmo um atraso no pagamento de aluguel, poderia atrair atenções indesejáveis.

Mas, o chamado  grupo tático  fora o setor mais duramente golpeado pelas investidas repressivas. 

Então, quando se planejou a expropriação simultânea de dois bancos vizinhos, na zona Leste paulistana, o pessoal experiente que sobrara não bastava para levá-la a cabo.

Eu e os sete companheiros secundaristas que acabáramos de ingressar na Organização fomos todos escalados -- na enésima hora, entretanto, chegou a decisão do Comando,  que me designou para criar e coordenar um setor de Inteligência, então fiquei de fora.

Lamarca, procuradíssimo pelos órgãos repressivos, fez questão de estar lá para proteger os recrutas no seu  batismo de fogo. Os outros quatro comandantes tudo fizeram para demovê-lo, em nome da sua importância para a revolução. Em vão. A lealdade para com a  tropa  nele falava mais alto.

Depois de muita discussão, chegou-se a uma solução de compromisso: ele não entraria nas agências, mas ficaria observando à distância, pronto para intervir caso houvesse necessidade.

Houve: um guarda de trânsito, alertado por transeunte, postou-se na porta de um dos bancos, arma na mão, pronto para atingir o primeiro que saísse.

Lamarca, que tomava café num bar a 40 metros de distância, só teve tempo de apanhar seu .38 cano longo de competição, mirar e desferir um tiro dificílimo -- tão prodigioso que, no mesmo dia, a ditadura já percebeu quem fora o autor. Só um atirador de elite seria capaz de acertar.

Segundo o Darcy Rodrigues, foi a vida dele que Lamarca salvou. O próprio, contudo, contou-nos que seria um dos novatos o primeiro alvejado.

Como resultado, a repressão teve pretexto para fazer de Lamarca o  inimigo público nº 1 -- e, claro, o fez. A imagem dele foi difundida à exaustão, obrigando-o a redobrar cuidados e até a submeter-se a uma cirurgia plástica.

Também teve de brigar muito com os demais dirigentes e militantes, para salvar a vida do embaixador suíço Giovanni Butcher, quando a ditadura se recusou a libertar alguns dos prisioneiros pedidos em troca dele e ainda anunciou que o Eduardo Leite (Bacuri) morrera ao tentar fugir.

Dá para qualquer um imaginar a indignação resultante -- afinal, as (dantescas) circunstâncias reais da morte do  Bacuri  ficaram conhecidas na Organização.

Mesmo assim Lamarca não arredou pé, usando até o limite sua autoridade para evitar que a VPR desse aos inimigos o monumental trunfo que as Brigadas Vermelhas mais tarde dariam, ao executarem Aldo Moro. O episódio foi tão traumático que ele acabou deixando a VPR.

E, no MR-8, novamente divergiu da maioria dos companheiros -- quanto à sua salvação.

Pressionaram-no muito para que saísse do Brasil, preservando-se para etapas posteriores da luta, pois em 1971 nada mais havia a se fazer. Aquilo virara um matadouro.

Conhecendo-o como conheci, tenho a certeza absoluta de que não perseverou por acreditar numa reviravolta milagrosa. Em termos militares, suas análises eram as mais realistas e acuradas. Nunca iludia a si próprio.

O motivo certamente foi a incapacidade de conciliar a idéia de  fuga  com todos os horrores já ocorridos, a morte e os terríveis sofrimentos infligidos a tantos seres humanos idealistas e valorosos. Fez questão de compartilhar até o fim o destino dos companheiros, honrando a promessa, tantas vezes repetida, de vencer ou morrer.

Doeu -- e como! -- vermos os militares exibindo seu cadáver como troféu, da forma mais selvagem e repulsiva.

Mas, ele havia conquistado plenamente o direito de desconsiderar fatores políticos e decidir apenas como homem se preferia viver ou morrer.

Merece, como poucos, nosso respeito e admiração.

Sunday, September 11, 2011

OMBUDSMAN ADMITE TENDENCIOSIDADE DA REPORTAGEM SOBRE BATTISTI

Alvíssaras! Finalmente a Folha de S. Paulo não só admite haver cometido erros numa matéria em que assumiu postura de direita contra a esquerda, como reconhece que tais erros decorreram de se haver alinhado com a primeira, ao invés de manter isenção e equidistância nos seus espaços informativos.

Acionada pela mensagem que lhe encaminhei, a ombudsman Suzana Singer ouviu os envolvidos na efetivação da entrevista de Cesare Battisti que foi publicada pela Folha no domingo passado (4): o próprio; o sindicalista Magno de Carvalho, que o estava abrigando; e o repórter João Carlos Magalhães.

Ela inocentou o repórter, mas condenou "a mão pesada da edição", ou seja, a foto e a legenda estampados na capa, mais o título dado no caderno interno. Eis sua avaliação:
"A reportagem está correta, mas a mão pesada da edição estragou o resultado. O corte dado à foto original amplia o entrevistado e a sua cerveja, fazendo com que a risada, ao lado do 'la dolce vita clandestina' [sarcasmo expresso na legenda], soe como um deboche.

O texto não suporta esse título: ele mora em uma casa modesta, vive quase sem dinheiro, isolado, com medos persecutórios. Sua vida só é doce para os que acreditam que Battisti deveria estar na prisão.

Na página interna, aparece outra foto dele bebendo, desta vez uma cachaça. Redundante, só faria sentido se houvesse algum indício de alcoolismo, o que não é o caso.
 O título -'Revolução? Isso é uma piada'- omite a palavra 'armada', o que passa a impressão de que ele desistiu de qualquer luta social. Como diz Battisti, ele ficou mal com a 'direita' e com a 'esquerda'.
Em dez editoriais, ao longo de dois anos, a Folha defendeu duramente a extradição...

Nenhum problema nisso. O jornal deve defender suas posições no espaço correto. Só não pode deixar que a opinião contamine o noticiário, como aconteceu no domingo".
Trocado em miúdos, a opinião do jornal da ditabranda  sempre foi contrária ao antigo militante revolucionário (como o é em relação a todos os revolucionários, antigos e atuais...), mas as boas práticas jornalísticas exigiam que tal viés não impregnasse a informação.

Isto, entretanto, não ocorreu. A edição foi tendenciosa, procurando passar a pior imagem possível de Battisti na capa do matutino, vista por um número muito maior de pessoas do que as páginas internas, pois fica exposta nos pontos de venda; e no título da reportagem, que também é lido por mais pessoas do que o texto.

Quem compra um jornal, folheia-o para saber o que cada página contém, mas só lê os assuntos que realmente lhe interessam. Ora, passando os olhos pela reportagem sobre Battisti, sem mergulhar no texto, o leitor ficaria com as seguintes impressões: é um debochado que está sempre enchendo a cara, leva uma  dolce vita  no Brasil e renega a revolução que dizia defender. 

Ou seja, reforça a caricatura que linchadores como Mino Carta dele esboçaram e tudo fizeram para impingir ao distinto público.

Foi uma reveladora lição de como jornais e jornalistas inescrupulosos plantam conceitos na cabeça dos incautos.

ESPIÕES E REPÓRTERES

Quanto às justificativa da ombudsman para outros desvios de conduta do jornal, não convencem. Usar uma relação familiar para obter entrevista, insinuando-se junto ao entrevistado como amigo e não como profissional, é procedimento de espião, não de repórter.

Para Suzana Singer, "tanto faz de quem foi a idéia" da ida de Battisti a um boteco para a tomada de imagens. Mas, tendo sido ele levado a crer que o jornalista, afiançado pelo tio, não pretendia  sacaneá-lo (é a expressão cabível), deu sua colaboração por cortesia. Battisti é afável por natureza.

Ou seja, colocou-se ingenuamente numa posição ridícula e que em outras circunstâncias não assumiria, graças a um ardil do repórter. Tanto faz?

Na troca de e-mails com a ombudsman, pedi-lhe que apurasse um pequeno mas revelador detalhe: quem pagou a conta? Sabendo das dificuldades financeiras de Battisti, a ponto de abreviar conversas telefônicas para não gastar muitos créditos do seu cartão, eu tinha certeza de que se constataria o óbvio: quem convida, paga. Tanto faz?

Quanto à leviandade do jornal, ao espalhar pelo mundo o nome da região em que Battisti residia, foi simplesmente grotesca. Havia o compromisso de não o fazer, imposto a todos os entrevistadores. Duas revistas honraram a palavra empenhada. A Folha, não. Eis a explicação de Suzana Singer:
"O sigilo a respeito da cidade onde ele vive foi, de fato, quebrado, mas, dois dias antes da publicação, o repórter consultou o dirigente sindical Magno de Carvalho, o dono da casa onde Battisti está. A informação havia vazado na internet e Carvalho concordou que não havia mais segredo a preservar".
O vazamento se deu, na verdade, em jornais da região, não na internet. E a informação dificilmente chegaria à Itália, de onde podem ser despachados os assassinos -- afinal, foi o que o serviço secreto daquele país já tentou fazer uma vez, quando andou negociando com mercenários o sequestro ou eliminação de três alvos em território estrangeiro (ele e outros dois, conforme noticiado pela própria imprensa italiana).

Trombeteado pelo dito  maior jornal do Brasil, agora, com certeza, o nome da cidade é do pleno conhecimento dos inimigos de Battisti. Foi mais um abuso de confiança do repórter, aproveitando-se da boa fé do tio para dele arrancar um álibi que, sabia, seria útil adiante.

Notem: João Carlos Magalhães não consultou aquele que seria o maior prejudicado por sua indiscrição, Battisti. Por que será?

Ou, como diria Suzana Singer,  tanto faz...

Saturday, September 10, 2011

COMPANHEIRO ALLENDE? PRESENTE! AGORA E SEMPRE!

Há duas efemérides marcantes neste domingo, 11 de setembro.

A menos relevante para nós  é aquela que a mídia colonizada trombeteia ad nauseam: o décimo aniversário de um atentado nebuloso nos EUA, com grande possibilidade de ter sido urdido ou, ao menos, consentido pelos que depois surfaram na onda da indignação provocada. Algo como uma versão atualizada do incêndio do Reichstag.

O certo é que deu pretexto para o desencadeamento de uma escalada repressiva/intervencionista que fez lembrar a intolerante e paranóica década de 1950 -- aqueles anos terríveis do macartismo e da guerra fria.

Os efeitos da pirotecnia atribuída a Osama Bin Laden, contudo, pouco se fizeram sentir no Brasil -- ao contrário dos de um atentado que golpeou duramente as aspirações dos povos latino-americanos, destruindo um dos mais generosos experimentos socialistas do século passado. 

Deixando de lado a pauta da imprensa espiritualmente satelizada pelo Império (*), eu quero mesmo é reverenciar um dos maiores heróis da nossa sofrida América Latina: Salvador Allende, o  compañero presidente.

Que nunca pretendeu, no poder, ser nada além de outro militante revolucionário, como todos os seus companheiros de jornada na luta por um Chile com liberdade e justiça social.

E que, naquele terrível 11 de setembro de 1973, não aceitou curvar-se aos tiranos, preferindo a morte digna à fuga indigna que lhe ofereceram.

Então, as palavras que endereçou ao povo pelo rádio, na iminência do martírio, inspirarão para sempre os combatentes por um mundo redimido do pesadelo capitalista:
"Colocado numa transição histórica, pagarei com minha vida a lealdade do povo. E lhes digo: tenho certeza de que a semente que entregaremos à consciência de milhares e milhares de chilenos não poderá ser extirpada definitivamente. Trabalhadores de minha Pátria! Tenho fé no Chile e em seu destino. Outros homens se levantarão depois deste momento cinza e amargo em que a traição pretende se impor. Sigam vocês sabendo que, bem mais cedo do que tarde, vão abrir-se de novo as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor".
* E que ninguém venha me falar em números redondos e quebrados: aposto até meu último centavo que, em 11 de setembro de 2013, a mídia servil dará muito mais destaque aos 12 anos do atentado ao WTC do que aos 40 anos da morte de Allende.

Tuesday, September 06, 2011

MENSAGEM À OMBUDSMAN DA 'FOLHA' SOBRE DESVIOS DE CONDUTA DO JORNAL

Prezada senhora,

em nome de Cesare Battisti, venho denunciar três graves desvios de conduta jornalística em que incorreu a "Folha de S. Paulo" na entrevista "Revolução? Isso é uma piada", publicada no último domingo, 04/08.

1) a utilização, por parte do jornalista João Carlos Magalhães, de uma relação familiar (no caso o tio, Magno de Carvalho Costa) para obter a entrevista, a despeito da desconfiança que a "Folha de S. Paulo" inspirava em Battisti e em todos nós do Comitê de Solidariedade -- não só por seu viés na cobertura do caso, que sempre avaliamos como adverso, como por ter se posicionado favoravelmente à extradição para a Itália em editorial publicado no dia do julgamento no STF.

Eis o depoimento de carvalho Costa:
"Quero dizer que me sinto responsável por trazer a minha casa, onde está hospedado o companheiro Cesare, o jornalista João Carlos Magalhães da 'Folha de S. Paulo', que acabou fazendo a matéria, que certamente foi o que de pior já publicou sobre Cesare Battisti no Brasil.

Este jornalista no qual confiei e fiz confiar ao Cesare, é meu sobrinho e é filho de pais de esquerda...

Foi com a maior surpresa e decepção que leio a matéria infame publicada pela 'Folha de São Paulo', (...) em que o Sr. João Carlos Magalhães rompendo com todos os acordos feito comigo e com o próprio Cesare de imparcialidade, publica esta matéria com o claro objetivo de provocar a Direita e por outro lado, indispor Cesare com todos os que o apóiam, negando suas convicções".
2) O logro, o uso de subterfúgios e o descumprimento de promessas poderiam ser considerados apenas lapsos morais, se o jornalista não tivesse se valido da confiança que Battisti nele depositou (porque afiançado pelo tio), para induzi-lo a uma exposição negativa. Eis o relato de Battisti:
"...[foi colocada na] primeira pagina uma foto aonde eu apareço feliz da vida com gargalhadas e cervejas, cujo titulo e legenda 'La dolce vita clandestina' serve para dizer à Itália que eu estou me lixando dos dramáticos anos 70...

...Agora vem a safadeza: ele mesmo [o jornalista João Carvalho Magalhães] me levou ao bar só na intenção de tomar essa foto".
A conjugação de uma foto de Battisti gargalhando com uma legenda sarcástica predispõe, indiscutivelmente, os leitores contra ele. É inaceitável que o jornalista o tenha induzido a colocar-se nessa situação, aproveitando a forma dúbia como se introduziu junto a Battisti para o desmoralizar. Trata-se, nem mais, nem menos, de uma armadilha. A ingenuidade de um não justifica a má fé e falta de escrúpulos do outro.

3) Pior ainda foi haver rompido unilateralmente e sem comunicação prévia o acordo de não revelar a região em que Battisti estava morando. Trata-se de um cidadão contra quem, há vários anos, é movida uma intensa campanha de ódio na Itália e no Brasil. A própria imprensa italiana já noticiou que o serviço secreto daquele país tentou contratar mercenários para sequestrá-lo ou eliminá-lo em solo estrangeiro, com as tratativas só não avançando por desacordo quanto a preço. Enfim, Battisti tem justificados motivos para adotar algumas precauções.

Uma condição imposta aos entrevistadores tem sido sempre esta: a de não facilitar sua localização. A revista "IstoÉ" a respeitou, mesmo se tratando de uma matéria de capa. Idem a revista "Piauí".

A "Folha", não. Logo no 3º parágrafo, bem como no crédito do jornalista, colocou uma informação que poderia inspirar um atentado contra Battisti -- sem nenhum motivo jornalístico para tanto, uma vez que nada de relevante acrescenta ao texto, sua situação no Brasil está totalmente legalizada e ele pode residir onde quiser. Por que não aludir, simplesmente, a "uma pequena cidade no litoral paulista", como os outros fizeram?

Confio em que a Senhora compreenderá a gravidade do que estou expondo e vá tomar as providências devidas.

Atenciosamente,

CELSO LUNGARETTI
jornalista profissional

Monday, September 05, 2011

BATTISTI: "EIS O QUE ACONTECE QUANDO SE DEIXA O DIABO APROXIMAR DA GENTE"

Queridos amigos (as) e companheiros (as),

Sinto necessidade de dirigir-me a todos vocês, depois de ler a enésima ópera de desinformação, perpetrada pela Folha de S. Paulo, publicada hoje, domingo, 4 de setembro de 2011.

 A covardia desse jornal e de seus redatores, não conhece limites.

Apesar de ser a Folha de S. Paulo, recebi o “jornalista” João Carvalho Magalhães por ter uma boa recomendação.

A expectativa era que este jornalista iria provar que a Folha iria resgatar a sua “imparcialidade”, que nunca demonstrou em todas as suas matérias anteriores sobre mim.

Eis que vendo a matéria tenho que admitir a grande ingenuidade. O acordo com este suposto jornalista era que eu não queria tratar assuntos polêmicos com o governo italiano, nem com autoridades brasileiras e que ele centraria a matéria sobre o homem e o escritor.

O trabalho de desinformação e de manipulação foi feito de maneira cientifica: de um lado, ele permite que se coloque na primeira pagina uma foto aonde eu apareço feliz da vida com gargalhadas e cervejas, cujo titulo e legenda “La dolce vita clandestina” serve para dizer a Itália que eu estou me lixando dos dramáticos anos 70; por outro lado, ele tenta quebrar o inegável apoio a minha causa dada pelos companheiros de vários países, titulando a pagina 10 do primeiro caderno “Revolução, isso é uma piada”.

Agora vem a safadeza: ele mesmo me levou ao bar só na intenção de tomar essa foto, em seguida, a pergunta se acredito ainda na revolução pela via das armas, ele distorce propositalmente a minha posição - “a luta armada não é mais viável hoje, em países como, por exemplo, o Brasil” - para fazer-me parecer aos olhos do movimento revolucionário um cínico que só aproveitou da solidariedade de companheiros.

 Eis o que acontece quando se deixa o diabo aproximar da gente.

Tenho a precisar que a responsabilidade desta imprudência é só minha e por isso peço desculpas a todos vocês que me acompanharam irrepreensivelmente desde o início desta história.

Um abraço,

Cesare Battisti

ESPONTANEIDADE É IGUAL A INGENUIDADE

No fundamental, a entrevista publicada pela Folha mostra um homem que lutou por grandes ideais quando era jovem, pagou sua cota de sofrimento (como a maioria dos que então fomos fundo nas tentativas de mudar o mundo) e depois deu outro rumo à vida, que já estava direcionada para preocupações menores e para a profissão de escritor quando a perseguição inquisitorial, kafkianamente, recomeçou.

Erigido em troféu que a pior direita européia queria empalhar e exibir na parede, mergulhou num pesadelo que o fez fugir de país em país até ser salvo pelos esforços de cidadãos justos e solidários do Brasil.

Agora, só pensa em reatar os fios de sua existência, voltando ao ponto em que se encontrava antes do novo pesadelo. Quer tornar a ser um homem comum, cuja única militância idealista se dará no campo da literatura.

Tem todo direito a seu repouso do guerreiro e a seu lugar tranquilo no campo (ou na praia, ou na cidade). 

E nós, que movemos céus e terras para livrá-lo dos linchadores, continuaremos nos orgulhando de haver impedido um crime comparável à condenação e destruição da carreira militar do inocente Alfred Dreyfus, à execução dos também inocentes Sacco e Vanzetti, à execução dos  laranjas  Julius e Ethel Rosemberg.

Quanto aos detalhes, eu até entendi o  espírito  da (infeliz e inoportuna) afirmação de que "se eu continuasse um revolucionário hoje, seria um idiota". 

O que Lula disse certa vez foi pior, por representar uma crítica direita a quem mantém seus ideais na velhice. A frase do Cesare pode, pelo menos, ter a leitura de que perserverar na luta revolucionária seria idiotice especificamente no caso dele

Mas, uma pessoa tão visada como o Battisti não pode se dar ao luxo de, entrevistado pelo jornal da   ditabranda, expressar-se de forma tão açodada. Nessas situações, espontaneidade é igual a ingenuidade. Melhor encarar a situação como uma partida de xadrez.

O mal está feito. Agora, é dar a volta por cima, efetuando a chamada  autocrítica na prática

Ou seja, o Cesare precisa ter bem claro o que almeja nesses contatos com a imprensa, e passar a conduzir a entrevista no sentido que lhe convém, ao invés de se deixar levar pelo repórter para armadilhas óbvias, como a foto e o vídeo feitos no boteco.

Certa vez o Paulo Francis contou que presos políticos brasileiros recém-trocados por um diplomata foram dar uma coletiva num país do 1º mundo e, sentindo-se  constrangidos  ao relatarem as torturas que haviam sofrido, sorriam, sem jeito.

Os jornalistas estrangeiros, por desconhecerem nossa forma de ser, concluíram que eles mentiam, porque uma pessoa que tivesse sido vítima de sevícias tão escabrosas não estaria alegre ao tocar nesse assunto...

O bom ou mau desempenho numa entrevista depende de uma infinidade de pequenos detalhes como este. Para alguém ligado à política, não deixar que lhe registrem a imagem com copo de bebida na mão é um dos mais óbvios.
 
Em tempo: eu continuarei na luta por uma sociedade igualitária e justa, já que o Brasil de hoje ainda está bem distante daquele com o qual eu sonhava no longínquo 1967, quando comecei a percorrer o caminho das lutas sociais. Seja eu um sujeito teimoso (como escreveu um jornalista amigo) ou idiota, seguirei perseguindo meus velhos ideais. (Celso Lungaretti)